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Sutilezas
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Ensaio de despedida

"Vou-me embora dessa terra
Vestida de Colombina
Volto pro meu sertão velho
Vou buscar minha menina
(...)

Vou fazer uma fantasia
Livre dessa cor fatal
Vou-me embora bem depressa
Pravoltar no carnaval."


("Ensaio de Despedida - Janice Japiassu)


É preciso saber voltar. E é difícil. Depois de quase um mês nos mundos que transitei enquanto andei por essas terras pernambucanas, preciso reencontrar o meu lugar. De certa forma é difícil reconhecer e admitir a mim mesma que apesar de amar, admirar e viver o que as terras daqui e outras terras me oferecem, o meu lugar é Brasília e a vida que estou construindo lá. Mas ao mesmo tempo, perceber isso dá um certo "alívio". Não é bem um alívio, na verdade é mais um pé no chão com tranqüilidade. Porque o meu mundo brasiliense não está desconectado do mundo daqui, das coisas daqui. E sinto parte do caminho que estou me propondo a traçar é justamente reforçar essa conexão, essa ponte.

Mas isso tudo ainda tá muito na intuição. As respostas gostam de vir aos poucos...

“Aprendi com o Recife
A fazer Pontes no mundo
Uma Ponte pro passado
Uma Ponte pro futuro
Uma Ponte pro presente
Entre seus claros-escuros...”


(“Pontes” - Janice Japissu

February 24, 2007 | 6:04 PM Comments  3 comments

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A náusea... e a flor?

Volto cinzenta e chuvosa pra casa. A cidade me invadiu, deu um nó nas minhas entranhas e no meu coração. A cidade e suas pessoas, suas ruas, seu trânsito. A cidade e sua pressa, seu desrespeito, sua falta de compreensão. E no meio disso tudo, a pergunta principal não é se há vida nessa selva de pedra, e sim que tipo de vida há nela.

"Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me'?"


As ruas do Recife são cobertas de lixo e cheiram a mijo. O mesmo Recife dos cartões postais, do famoso carnaval e das propagandas turísticas. É um contraste atrás de outro nesse mundo de concreto e asfalto. O governo que cuida das propagadas e atrações turísticas é o mesmo que descuida das estruturas urbanas básicas. As pessoas que sorriem, dançam e cantam no carnaval são as mesmas que fazem do Recife um lixão, sem a menor preocupação em cuidar da sua cidade ou cobrar dos seus governantes que façam isso também. Uma chuva de verão inunda o centro da cidade e as pessoas são forçadas a andar no meio da água suja, que por sinal é produto do lixo que é jogado todos os dias nas ruas.

"Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase."


O que a cidade faz com as pessoas? Essa foi a pergunta que me deu um soco no estômago quando vi uma cena em pleno centro recifense: uma senhora tomando banho na rua com a água que escoava dos prédios, e as pessoas passando ao seu redor como se aquilo não fosse nada demais. Outra cena absurda: um homem estirado no chão, com uma aparência terrível, como um morto, e sentado ao lado dele um casal namorando. Como isso é possível!? Como as pessoas convivem com situações e cenas como essas? Como isso não as incomoda, minimamente?

"Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal."
"

Sinto que em momentos como esse paira uma nuvem na minha cabeça, uma sombra. Fico taciturna mesmo, sem acreditar no ponto em que chegamos enquanto seres humanos. É evidente que o jeito que as pessoas se relacionam entre si e com o ambiente é insustentável. Isso não é nenhuma novidade. Também não é novidade que estamos recebendo “sinais” de que muita coisa está errada e algo deve ser feito. Mas até que ponto isso realmente chega até as pessoas? Até que ponto o que é feito mexe com as pessoas dentro da máquina da cidade?

"Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima."


São muitos sentimentos e muitos gritos embolados no didentro agora. Muito que não sai nessas palavras digitadas. E depois de um suspiro de cansaço fica a constante questão: e eu, o que faço?

***

OBS: " " do Drummond - "A Flor e a Náusea" - leia aqui

February 22, 2007 | 4:05 PM Comments  2 comments

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Brincante

Tenho percebido cada vez melhor as dimensões que as palavras “brincante” e “brincadeira” têm. O que antes para mim era uma vaga idéia, palavras relacionadas a festas e tradições populares, agora tem sentidos e significados muito mais profundos. Vendo de perto a relação dos brincantes – aquelas pessoas que festejam e fazem parte das tradições – com suas brincadeiras, entendo um pouco mais sobre o brilho e a energia genuínos que envolvem e encantam – tão presentes na cultura popular.

É justamente isso que há certo tempo tento entender: o que tem na cultura popular que mexe tanto com as pessoas, envolvendo-as em vários níveis, despertando impulsos, sensações, movimentos, gostos, lembranças... Um toque de tambor que faz o sangue correr mais rápido nas veias, uma história conhecida da infância encenada no mamulengo, uma dança da terra dos pais e avós, personagens presentes no nosso imaginário... Isso, que representa algo maior, com certeza, e muito mais.

Para mim, quando se trata de cultura popular, muita coisa está além das palavras e fica difícil explicar de uma forma concreta e objetiva, porque ainda está no nível das sensações. E é assim que percebo o brilho e a energia genuínos que mencionei anteriormente. É algo verdadeiro, puro, ainda muito distante da compreensão. Acho que isso é um dos elementos do “muito mais” que tem na cultura popular e que envolve tanto. E isso é a profundidade da relação do brincante com a sua brincadeira.

Aprendi muito sobre isso passando uns tempos na cidade de Tabajara, onde mora a família Salustiano, acompanhando as preparações do Maracatu Rural Piaba de Ouro. Percebi o quanto o brinquedo, que é o Maracatu, significa para seus brincantes, que passam noites em claro costurando vestidos e saias de baianas, bordando gola (a roupa) do caboclo de lança. Vi como trabalha a Associação dos Maracatus de Baque Solto (os Rurais), que providenciam tudo para que as pessoas do interior possam brincar, cuidando delas. Vi nos homens, mulheres, velhinhos e crianças que participam do maracatu o brilho de empolgação e alegria de brincar o carnaval. Ouvi histórias de como começou o Maracatu Rural e como as pessoas dedicam energia, alma e coração a isso.

Mestre Salustiano, depois de sair da Zona da Mata para morar na capital, foi chamado de doido, entre outros nomes, inúmeras vezes, como ele me contou. Passou todas as dificuldades possíveis e imagináveis, criou 15 filhos e mais alguns agregados, ensinando a tocar rabeca, brincar mamulengo, fazer verso de maracatu, dançar frevo e cavalo marinho. Vendeu seu caminhão para fazer o primeiro encontro de maracatus, quando só existiam algumas agremiações. Hoje existem mais de cem em Pernambuco, que se encontram na Casa da Rabeca do Brasil, espaço construído por Salú que virou referência no país inteiro.

A brincadeira é a verdade desses brincantes, e por isso tem esse brilho, essa energia envolvente, pura. É isso que sinto e é nisso que acredito. Conhecer de perto essas histórias, essa determinação e ver como as pessoas seguem as suas verdades tem sido inspirador, fortalecedor, e tem me ensinado muito.

February 14, 2007 | 2:53 PM Comments  1 comments

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Quem se atreve a me dizer...


February 8, 2007 | 3:58 PM Comments  0 comments

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Pontos

De repente, não mais que de repente, tudo muda. Incrível o poder que as coisas têm de simplesmente virarem, mudarem de lado, do avesso, de perspectiva...

A última vez que escrevi aqui foi exatamente há seis meses atrás. Foi um ponto, como uma pausa longa, de vários compassos. Uma pausa necessária, eu diria, para as águas rolarem debaixo da ponte e a vida fluir, reconhecendo o balanço do Carrossel do Destino, as voltas da Roda da Fortuna.

A vida mudou. Mesmo. O momento que descrevi no texto “Coração do Brasil?”, em que eu chorei durante horas e horas no chão de São Jorge, foi de rompimento, mudança. Chorei porque sabia que dentro de mim muito estava se desfazendo pra formar algo novo. Diluí aquilo que estava embolado no didentro, tirando tudo aquilo de mim em forma de lágrimas.

Que bom que isso é possível! Que bom que na nossa vastidão podemos reconhecer a mudança de mundos, de jeitos, de vontades e conhecer a imensidão de possibilidades.
Que bom poder experimentar outros caminhos possíveis, porque é só pisando que se conhece as pedras, é só olhando que se escolhe para onde ir.

Outro dia me disseram que eu já me “desviei” do meu caminho uma série de vezes. Não respondi, apesar de achar a afirmação absurda. Fiquei pensando: qual é o jeito “certo”, se é que existe um, de se manter em um caminho? É escolher uma coisa e continuar nela, mesmo que isso não lhe faça bem ou que não seja o que você ama e quer de verdade? É possível fazer isso sem conhecer e experimentar as milhões de possibilidades que existem?

Como sabemos qual é o nosso caminho?
Uma vez um amigo querido, Rangel, disse: “não conheço a Verdade. Mas reconheço quando ela está presente”. Acho que isso se aplica nessa questão também. Posso não medir, pesar, enquadrar, justificar, bla, bla, bla, qual é o verdadeiro caminho pra mim. Mas reconheço.

Curioso isso... Porque se comprova com a falta do medo de fracassar, de não dar conta, tão presente em outros momentos e espaços. Esse medo do fracasso vem quando as coisas não são da nossa Verdade, certamente. Acredito nisso.

Um brinde ao rodar e ao balançar do Carrossel e da Roda!

Agora é saber pisar, conhecer o meu andar e perceber por onde ando... Porque mesmo sendo meu e verdadeiro, o caminho não é feito só de belezas e rosas, com certeza.

O ponto que dei há seis meses talvez seja de reticências, pela pausa necessária, talvez seja um ponto final para começar outro período. Que venham mais pontos de exclamação, interrogação, reticências...

February 7, 2007 | 10:30 PM Comments  2 comments

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