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Sutilezas
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Epifanias

O que acontece quando a organização anterior não serve mais, aperta, sufoca...?

Lembro de um livro da Clarice Lispector que li no ano passado, "A Paixão Segundo G.H.". Recomendo, mas é preciso cuidar da sanidade mental ao lê-lo. Enfim, G.H passa por todo um processo de transformação, e entre várias outras coisas, ela perde o que chama de terceira perna - a "muleta" que muitas vezes usamos para nos apoiar - e aprendendo a andar com suas duas pernas. Ela percebe que a vida estava organizada de uma forma que não podia continuar, e ao se deparar com a necessidade de mudança, no meio de uma onda epifânica, se vê numa desorganização total. Precisa então, reconstruir, reorganizar-se, mas sem voltar ao que tinha anteriormente. Pois a "organização anterior" era como ela vivia, era o que precisava mudar.

Pois é, tenho pensado: quanto de coragem é necessário para...

• perceber, reconhecer e aceitar que o que existia antes não "vale" (no sentido de validade) mais?
• perceber que há mudanças e que a (des)organização em que se vivia anteriormente não serve mais e que é preciso desconstruir para ter uma nova organização?
• desprender-se de situações ou jeitos de viver, relacionar-se e fazer as coisas que podem não ser os melhores e mais saudáveis?
• buscar o desconhecido ou o reconhecimento das coisas? E para buscar novas belezas para o olhar?

Tive uma experiência que literalmente ilustra isso. Quando voltei (fisicamente pelo menos) de um mês e meio de viagem, eu não cabia mais no meu quarto. A sensação física era de sufoco, de estar apertada mesmo. Agonia, inquietude... A primeira providência que tomei, num impulso, foi desmontar a cama, tirar vários móveis, papéis, livros, roupas, de dentro, apagar um pouco das pinturas e tirar alguns desenhos das paredes. Ufa...

Algumas coisas não cabiam mais dentro do meu quarto e tampouco dentro de mim. Não tinha lugar mesmo, por mais que eu tentasse colocar dentro de uma gaveta, encaixar em algum lugar. Não cabia. Olhei aquilo, aquele meu movimento de tentar empurrar, forçar a coisa, mas não dava. Então pude ver o quanto isso tudo é simbólico.

É preciso saber ver o que não está dando certo, o que não está mais saudável e "let go". Isso não quer dizer um total desprendimento de "deixar pra lá", como foi o meu movimento seguinte. Há, é claro, uma alternativa: procurar um modo de transformar, curar, a coisa. Uma carta do Tarô que tirei certa vez me disse: "se você segurar firme em algum aspecto da sua vida que não está dando certo, você torna impossível a cura desse aspecto. Deixe que essa situação se cure, perceba a sua parte nessa cura ou permita que uma nova situação apareça".

Isso tudo envolve muita coragem, como coloquei nas perguntas. Acho que envolve muita ousadia também, e lembro de algo que já me repetiram algumas vezes marcantes: "você ousa perturbar o Universo?*" (*"do you dare to disturb the Universe?"). É preciso perturbar o seu próprio Universo, deixar que ele fique desorganizado, bagunçado como um quarto mesmo, para arrumar e reorganizar aos poucos...

March 23, 2007 | 1:05 AM Comments  4 comments

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Desvelando...

Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho não for mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.

Manoel de Barros

O que acontece quando o mundo sai dos nossos olhos? Quando o que acreditávamos ser verdadeiro se mostra diferente? Ou quando estamos tão diferentes que o que existia antes passa a não fazer mais sentido?

O que acontece quando percebemos que aos poucos nos diminuímos, podamos, fechamos, prendemos, pelas próprias noções de realidades, responsabilidades, ades, ades...? E somos nós, e ninguém mais, responsáveis por isso, porque somos nós que de alguma forma escolhemos como nos colocamos nos espaços e nas relações.

Um exemplo pra sair do abstrato:

Passei uma semana em Juazeiro do Norte, terra de Padre Cícero, de Reisado, de Guerreiro, de Lapinhas, onde a fé está presente em cada casa, em cada rosto, em cada esquina. Conheci uma nova dimensão da fé, que foge das minhas limitadas palavras, mas que me fez deixar os pré-conceitos (que nada mais são do que a visão engessada da história ensinada nas escolas) na rodoviária. Por que não se permitir acreditar e sentir que há algo maior, mais forte e profundo do que a nossa percepção pode alcançar. Maior que pessoas e símbolos. Maior do que as pessoas que são símbolos também, como é o caso de Padim Ciço (com todo o respeito). Uma fé maior, das velhinhas que fazem os rosários, das pessoas que enchem as salas de promessas e ex-votos, dos que sobem o horto a pé ou de perna-de-pau e os que moram ao longo dele.

Bom, isso é uma coisa. Outro exemplo:

Também em Juazeiro, convivi com o Carroça de Mamulengos e a União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus, que fazem um trabalho maravilhoso no bairro João Cabral de uma forma integrada, envolvendo a comunidade para manter e fortalecer as tradições, gerar renda a partir de uma cooperativa, produzir alimentos em uma cozinha comunitária, cuidar da estrutura, da revitalização do parque ecológico e das árvores e flores do bairro.

É um trabalho lento, que começou há alguns anos, mas que já tem um efeito impressionante. Percebi a dimensão e a força que um trabalho comunitário feito de forma integrada pode ter. E eles querem fazer mais, ir além, ousar, envolver outras pessoas e outros lugares... "A gente tem que saber sonhar", me disseram, "se não a gente não vai a lugar algum".

Pois é. É isso. Esse pensamento me bateu de repente. E foi forte. Percebi que há muito, muito tempo eu não ousava sonhar com algo. Sonhar, assim, simplesmente. Sem romantizar, sem ser piegas e nem puxar pra uma questão conceitual. Sonhar e ponto. Mas como?! E por quê? Por que perdi essa capacidade, essa noção? Nós, que falamos tanto em "sonho que se sonha junto é realidade" esquecemos de sonhar?! Bom, falo pelo menos por mim... Eu esqueci! E essa percepção me assustou. Muito.

As coisas são simples, isso é fato. Nós, seres humanos, é que complicamos demais, todo mundo tá cansado de saber disso. No meu caso, eu me envolvi de uma forma com a minha própria noção (nociva) de responsabilidade e compromisso, que me enrolei, endureci. Demais. E até perdi um tanto da ternura... E, de repente, percebo duas dimensões "novas" na vida, que parecem grandes revelações, mas que na verdade são (ouso dizer) essenciais: fé e sonho.

Como é que pode?!

***

Ufa! Consegui escrever... Tem muitos assuntos ligados a isso, vou colocando aos poucos. É bom poder tirar de mim em forma de palavras! E receber em forma de idéias, comentários e respostas também! =)

March 23, 2007 | 1:00 AM Comments  2 comments

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