Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho não for mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.
Manoel de Barros
O que acontece quando o mundo sai dos nossos olhos? Quando o que acreditávamos ser verdadeiro se mostra diferente? Ou quando estamos tão diferentes que o que existia antes passa a não fazer mais sentido?
O que acontece quando percebemos que aos poucos nos diminuímos, podamos, fechamos, prendemos, pelas próprias noções de realidades, responsabilidades, ades, ades...? E somos nós, e ninguém mais, responsáveis por isso, porque somos nós que de alguma forma escolhemos como nos colocamos nos espaços e nas relações.
Um exemplo pra sair do abstrato:
Passei uma semana em
Juazeiro do Norte, terra de
Padre Cícero, de Reisado, de Guerreiro, de Lapinhas, onde a fé está presente em cada casa, em cada rosto, em cada esquina. Conheci uma nova dimensão da fé, que foge das minhas limitadas palavras, mas que me fez deixar os pré-conceitos (que nada mais são do que a visão engessada da história ensinada nas escolas) na rodoviária. Por que não se permitir acreditar e sentir que há algo maior, mais forte e profundo do que a nossa percepção pode alcançar. Maior que pessoas e símbolos. Maior do que as pessoas que são símbolos também, como é o caso de Padim Ciço (com todo o respeito). Uma fé maior, das velhinhas que fazem os rosários, das pessoas que enchem as salas de promessas e ex-votos, dos que sobem o horto a pé ou de perna-de-pau e os que moram ao longo dele.
Bom, isso é uma coisa. Outro exemplo:
Também em Juazeiro, convivi com o
Carroça de Mamulengos e a
União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus, que fazem um trabalho maravilhoso no bairro João Cabral de uma forma integrada, envolvendo a comunidade para manter e fortalecer as tradições, gerar renda a partir de uma cooperativa, produzir alimentos em uma cozinha comunitária, cuidar da estrutura, da revitalização do parque ecológico e das árvores e flores do bairro.
É um trabalho lento, que começou há alguns anos, mas que já tem um efeito impressionante. Percebi a dimensão e a força que um trabalho comunitário feito de forma integrada pode ter. E eles querem fazer mais, ir além, ousar, envolver outras pessoas e outros lugares... "A gente tem que saber sonhar", me disseram, "se não a gente não vai a lugar algum".
Pois é. É isso. Esse pensamento me bateu de repente. E foi forte. Percebi que há muito, muito tempo eu não ousava sonhar com algo. Sonhar, assim, simplesmente. Sem romantizar, sem ser piegas e nem puxar pra uma questão conceitual. Sonhar e ponto. Mas como?! E por quê? Por que perdi essa capacidade, essa noção? Nós, que falamos tanto em "sonho que se sonha junto é realidade" esquecemos de sonhar?! Bom, falo pelo menos por mim... Eu esqueci! E essa percepção me assustou. Muito.
As coisas são simples, isso é fato. Nós, seres humanos, é que complicamos demais, todo mundo tá cansado de saber disso. No meu caso, eu me envolvi de uma forma com a minha própria noção (nociva) de responsabilidade e compromisso, que me enrolei, endureci. Demais. E até perdi um tanto da ternura... E, de repente, percebo duas dimensões "novas" na vida, que parecem grandes revelações, mas que na verdade são (ouso dizer) essenciais: fé e sonho.
Como é que pode?!
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Ufa! Consegui escrever... Tem muitos assuntos ligados a isso, vou colocando aos poucos. É bom poder tirar de mim em forma de palavras! E receber em forma de idéias, comentários e respostas também! =)